Resenhar um filme como esse parece difícil, já que se trata de um trabalho editado ao vivo para a platéia, com a história sendo conduzida de forma diferente a cada exibição. Não é bem assim. “Ressaca” pode ter várias formas de chegar ao seu final, mas os personagens e temas são os mesmos. É notável a habilidade com que o diretor relaciona a adolescência do protagonista com o período da instabilidade econômica do Brasil na década de 80, o que não é muito diferente de uma adolescência. Como não existe dúvida da qualidade da forma com que “Ressaca” é apresentado ao público, vamos ao conteúdo.
O protagonista é Thiago, de uma família de classe média que começa a sentir os efeitos da economia capenga daquela época. Como a narrativa de “Ressaca” é não-linear, o espectador pode ver o rapaz em qualquer momento de sua juventude, desde o início até o meio da adolescência. O pai perdeu o emprego e busca uma forma de trazer dinheiro para a família, que custa a se acostumar com a nova realidade. Dependendo da vontade do diretor em essa ou aquela exibição, o espectador pode se aprofundar mais em diversas questões, indo desde as tentativas de Thiago de se dar bem com as meninas até inserções de entrevistas sobre inflação, a rotatividade das moedas, entre outros assuntos.
Há muitos atores em seu primeiro filme, aqui, grande parte deles jovens. Babu Santana (de “Estômago”) faz um simpático vendedor de balas, e rouba a cena em alguns momentos. O protagonista, João Pedro Zappa, faz um bom trabalho no papel de Thiago, mas fica difícil saber se aquilo foi interpretação ou ele interpretando ele mesmo. De qualquer forma, fez um retrato muito bom.
Mas o que fica ao final, mesmo, é a sensação de uma experiência única. Quase literalmente. Não vou discutir aqui os impactos desse tipo de narrativa audiovisual, nem outras formas que pode ser aplicada. Como cinema, “Ressaca” é um retrato fiel e informativo daquela época. Ninguém iria gostar se um filme chato editado ao vivo. O trunfo de Bruno Vianna, aqui, é apresentar um bom filme ao vivo. E isso é o que fica, no fim.
Ressaca (2008), 100 min.
Direção: Bruno Vianna
Roteiro: Paola Barreto, Haroldo Mourão, Bruno Vianna
Com: João Pedro Zappa, Babu Santana, Denise Milfont, João Badul, Julia Bernat, César Augusto




